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Nascida na Venezuela, Katty Xiomara mudou-se de malas e bagagens para Portugal aos 18 anos. Ainda era estudante quando apresentou a sua primeira coleção no Portugal Fashion em 1996 e, desde então, tornou-se parte do calendário da Moda portuguesa e o seu nome chegou além-fronteiras. Em 2007, abriu as portas do seu primeiro atelier no Porto e, desde 2013, que voa até à Semana da Moda de Nova Iorque para apresentar as suas coleções tão ultra-femininas quanto divertidas. Fast forward para 2019, Katty está agora focada em agitar a indústria portuguesa com um novo compromisso: o eco-design.

Apresentamos o mundo empolgante da designer de moda. Katty Xiomara é a designer convidada na primeira colaboração Springkode.

After Now, a coleção que apresentou na última edição do Portugal Fashion, apela ao eco-design. A sustentabilidade sempre foi uma preocupação para a marca?

O meu trabalho de design tem quase 20 anos de percurso e devo reconhecer que há 20 anos ninguém olhava para esta questão. Vivíamos os primórdios do Fast-Fashion, que foi recebido por todos nós de braços abertos. A única forma de fazer-lhe frente enquanto marca era oferecer um produto mais pessoal, local e exclusivo. Sem nos apercebermos, estas características já falavam uma linguagem sustentável, mas devo admitir que quase por inercia. Até há bem pouco tempo, eu própria considerava que não poderia fazer muito para mudar o rumo desta indústria… Hoje encaro o pouco que consiga fazer como um grande avanço. Sei que não vou conseguir ser purista neste conceito da sustentabilidade, nem é o que procuro, porque o purismo não deixa de ser uma fórmula extremista e, portanto, difícil de manobrar. Contudo, fui descobrindo novas formas de ter um método de trabalho mais sustentável, não só através do uso de novos materiais, mas também na sua otimização, utilizando as formas a meu favor, obtendo um resultado tão estético quanto funcional.

A multifuncionalidade também ganhou destaque. Acha que a potencialização das diferentes peças que possuímos é a melhor resposta ao desperdício e consumismo impulsivo?

Não radicalizaria esta solução, denominando-a como a melhor, mas sem dúvida que é uma das mais simples, estando ao alcance de qualquer consumidor. A funcionalidade das peças contribui para atenuar esta nossa “necessidade” fabricada pelo Fast-Fashion de ter uma enorme quantidade de peças, que muitas vezes fazem só parte da montra do nosso guarda-roupa. É também uma forma inteligente de viajar só com o essencial. Por um lado, facilita a nossa linha de pensamento quanto às escolhas, por outro exercita a nossa criatividade quanto aos diferentes usos que lhe podemos atribuir, ocupando o menor espaço possível.

Está nas mãos das marcas tornarem-se mais eco-friendly ou ainda existem muitos obstáculos? Quais são?

Penso que é pertinente dizer que todas as marcas possuem essa escolha e não se trata de uma questão de tendência, mas sim de urgência e de necessidade. Não diria que existem obstáculos, mas devo admitir que não é fácil. É necessário perceber quais os fornecedores em que podemos confiar, perceber a veracidade dos materiais e as suas origens, mudar os métodos de trabalho e por último contar com a boa vontade do cliente final. A sustentabilidade é muitas vezes apontada como sendo um método de marketing, mas a realidade dos números indica um consumidor ainda longe de abraçar este conceito. O cliente final ainda não consegue fazer a métrica entre comprar um produto que poderá ter maior durabilidade a um preço inevitavelmente mais elevado ou comprar um produto que lhe oferece um mês de uso na primeira linha de modernidade embora na última linha da qualidade e durabilidade.

Qual seria a maneira mais eficiente de ajudar a Moda e o Design a tornarem-se mais sustentáveis? Precisamos de novas leis e plataformas de apoio aos designers, por exemplo?

Todas são necessárias; novas leis, plataformas que divulguem os produtos, apoio aos designers, etc. Todavia, penso que o mais importante é não simplesmente entregar a mensagem ao consumidor, mas atingi-lo. Se ele não estiver verdadeiramente consciente, nada irá mudar, porque afinal de contas “o cliente tem sempre razão”. Por exemplo, falamos de uma nova geração mais atenta a estas questões, porém é esta mesma geração que mais compra Fast-Fashion, tecnologia de ponta de 9 em 9 meses e comida processada. Isto quer dizer que a mensagem chega, mas não os atinge verdadeiramente.

Por outro lado, acha que a sustentabilidade corre o risco de ser apenas uma Moda? Como perceber se as marcas estão apenas a seguir a maré, não sendo verdadeiramente autênticas na sua mensagem eco-friendly?

À simples vista pode parecer uma nova “moda” ou uma tendência, mas eu penso que esta “moda” irá marcar um ponto de viragem na forma como encaramos este sector. Não me parece que seja um método inteligente usar uma mensagem eco-friendly de forma falsa, isto porque não é um mercado assim tão apetecível, ainda são poucos os consumidores com esta consciência bem implementada e esses poucos costumam estar muito bem informados das nuances, pelo que penso que não lhes será difícil, se não à primeira pelo menos à segunda, descobrir a falta de autenticidade das marcas relativamente a esta questão.

Em algum momento achou que a identidade Katty Xiomara poderia ficar comprometida neste processo de mudança para uma filosofia mais sustentável?

Eu falo abertamente da minha incapacidade de ser 100% sustentável, mas tento a cada passo conquistar um novo conhecimento e uma nova capacidade que me permitam melhorar os meus métodos de trabalho. Esse é o meu compromisso. Não vou abandonar o meu ADN de cor, estampados e texturas, procuro antes um equilíbrio, estudando a melhor forma de os aplicar sem afetar o ciclo de vida das peças.

O que mudou efetivamente no processo de produção?

Essencialmente o tempo dedicado ao estudo de soluções de eco-design, para assim conseguir peças mais funcionais, mas também uma análise mais profunda sobre a otimização das matérias primas por forma a minimizar o desperdício e uma melhor investigação da origem das mesmas, tentando encontrar novas soluções mais amigas do ambiente.

Quais os materiais e técnicas de confeção que passou a priorizar?

Temos dado mais prioridade aos algodões, poliésteres e poliamidas recicladas. Em termos de técnicas de confeção, mantemos a nossa exigência relativamente aos acabamentos e continuamos a produzir localmente. No que se refere à modelação e ao corte, aqui sim, temos colocado maior enfâse, estudando a melhor forma de minimizar os desperdícios.

Que mudanças ainda sente serem necessárias? Qual o próximo passo?

Ainda preciso de conhecer e experimentar novas matérias primas e aprimorar este conceito de eco-design.

Numa perspetiva mais pessoal e de estilo, que mudanças podemos de facto aplicar para, enquanto pessoas que vivem a Moda, garantir que o nosso impacto ambiental não é negativo?

Eu hoje acredito que pequenos gestos podem fazer a diferença se criarem uma cadeia de reação. Por isso, eu acho que cada um de nós pode individualmente fazer a diferença. Podemos começar no momento da escolha, depois da compra, de seguida no tratamento que damos à peça e por último na forma como comunicamos a nossa preocupação, não como uma imposição, mas como uma honesta preocupação, sentindo orgulho nesta nossa opção de preferir ignorar a tendência que o mercado impõe de, por exemplo, comprar um telefone novo, quando o nosso ainda está perfeitamente funcional.

Considera que estamos todos mais despertos para a sustentabilidade ou ainda temos um longo caminho a percorrer?

Ainda temos um longo caminho por percorrer. Para muitas pessoas separar o lixo é um esforço mais do que suficiente, quando na verdade deveria ser algo simplesmente natural.

Qual a sua opinião sobre plataformas como a Springkode e de que forma se identifica com a nossa visão?

Infelizmente ainda existe algum desconhecimento por parte do consumidor final relativamente ao facto de ser a nossa indústria têxtil a produzir grande parte das peças que ele compra. Embora o faça após um intrincado circuito de intermediários, aumentando assim o valor da mesma. É aqui que entra a genial ideia da Springkode, que oferece este produto de qualidade, numa vertente “linha branca” sem marca, diretamente da fábrica para consumidor final. Identifico-me bastante com esta visão que incentiva estas empresas a tomar partido das suas competências e a movimentar o seu stock, já que a ideia base destas pequenas coleções nasce no armazém de tecidos estagnados e sem uso. Assim as empresas reinventam o seu stock de forma eficiente e mostram-nos todas as suas qualidades a preços justos.

Não percas a coleção cápsula exclusiva desenhada por Katty Xiomara para a Springkode.

Dezembro 5th, 2019Springkode